Na última quinta-feira vivi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória com o Guardei no Armário, O Talk Show Ao Vivo no Sesc Consolação. A plateia estava cheia, vibrante, atenta e o coração pulsava forte diante da presença de uma lenda viva: João Silvério Trevisan.

Receber Trevisan foi mais do que entrevistar um escritor, foi reverenciar uma ancestralidade que abriu caminhos, que enfrentou a repressão, o medo e o silêncio para que hoje pudéssemos falar, amar e existir com dignidade. Ele nasceu em Ribeirão Bonito, em 1944, e desde cedo aprendeu que o mundo poderia ser hostil para quem é diferente. Entrou para o seminário aos treze anos acreditando buscar Deus, mas descobrindo com o tempo que buscava a si mesmo. Viveu o exílio da alma, o exílio do corpo e ainda assim transformou tudo isso em arte, em palavra, em legado.
Ouvir suas histórias sobre censura, sobre amor, sobre o tempo em que ser gay era um ato de resistência foi um mergulho profundo na história da nossa comunidade. Foi impossível não se emocionar ao lembrar que Trevisan fundou o grupo Somos, o primeiro de libertação homossexual do Brasil, e o jornal Lampião da Esquina, que deu rosto e voz a uma geração que ousou existir.

Seu livro Devassos no Paraíso é uma verdadeira bíblia LGBTQIA+, uma arqueologia da nossa existência, um mapa das dores e das vitórias que moldaram quem somos. E, diante dele, ali no palco, percebi o quanto o Guardei no Armário também é parte dessa continuidade. Meu projeto é, de alguma forma, herdeiro dessa coragem, desse desejo de registrar nossas histórias antes que o tempo tente apagá-las.
Foi um encontro catártico, quase espiritual. Eu me vi diante de um espelho do futuro, um homem gay que envelheceu com lucidez, coragem e ternura. Falamos sobre envelhecimento LGBTQIA+, sobre o quanto ainda precisamos construir políticas públicas, redes de cuidado e principalmente segurança emocional e financeira para envelhecer com dignidade.

Enquanto ele falava senti um nó na garganta e uma gratidão imensa. Entendi que cada conversa, cada vídeo, cada palco que o Guardei no Armário ocupa é também um gesto de reverência. Um modo de dizer: “nós viemos depois, mas estamos aqui porque vocês resistiram”.
No fim da noite o público se levantou em aplausos longos, demorados e naquele instante o Sesc se tornou um templo da memória. Foi especial, foi inspirador, foi uma celebração da vida e da palavra.
Saí dali com a alma leve, com a sensação de que encontrei um mestre e que, de alguma forma, a história que ele começou a escrever há décadas continua sendo escrita agora por nós.

Porque guardar no armário, hoje, é guardar com orgulho as vozes que vieram antes e abrir espaço para que as próximas possam florescer sem medo.
Nesta quinta, dia 23/10 teremos a presença de Giovanna Heliodoro. Uma Voz de Transformação e Inspiração. Ela é uma referência no cenário brasileiro como historiadora, comunicadora e ativista afrotransfeminista. Natural de Minas Gerais e atualmente residente em São Paulo.

Se destaca como uma das fundadoras do Transbaile, a primeira premiação brasileira dedicada às pessoas trans e travestis. Ela também brilhou no TEDx, compartilhando sua trajetória de afirmação identitária.
Além de sua atuação acadêmica, Giovanna é apresentadora do programa “Conversas que Inspiram” no Canal Futura e Globoplay, onde também me entrevistou e agora aqui a gente inverte os papeis. Ela é conhecida nas redes sociais como “Trans Preta” e, em 2018, fez parte do livro “Raízes – Resistência Histórica” com outras . Seu trabalho foi reconhecido em 2022 como “Influenciadora com Causa” pelo prêmio Geração Glamour.