Nos últimos dias tenho pensado muito sobre o que aconteceu com Manoel Rocha Neto, o psicólogo e mestrando que denunciou um episódio de racismo em um camarote durante o Carnaval de Salvador e, horas depois, tirou a própria vida. A sua história, marcada por coragem ao expor uma violência racial brutal, expõe algo que precisa ser discutido com urgência: o impacto que o racismo tem sobre a saúde mental de pessoas negras no Brasil.
Não devemos ignorar o fato de que homens negros enfrentam maiores índices de sofrimento psíquico, ansiedade e depressão justamente porque carregam, em seus corpos, os efeitos de um racismo estrutural e cotidiano. Cada insulto, cada bloqueio de espaço, cada desrespeito acompanhado de racismo não é apenas um insulto isolado é um golpe que se acumula no coração, na mente e no senso de pertencimento de quem já nasce segmentado pela cor da pele.
Ao mesmo tempo, essa conversa está chegando ao ambiente corporativo de forma inédita e necessária: a partir de maio de 2025, as empresas no Brasil passaram a incluir a saúde mental nos programas de gestão de riscos ocupacionais, por meio da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige que riscos psicossociais sejam identificados e prevenidos no ambiente de trabalho. Isso representa um avanço importante na forma como empresas e instituições abordam o bem-estar emocional de seus colaboradores e se posicionam frente à prevenção de adoecimento mental no trabalho.

Apesar dos avanços legislativos, ainda há um longo caminho para que esses princípios se conectem com as experiências reais de pessoas negras, LGBTQIAPN+ e periféricas, grupos que históricamente enfrentam exclusões e violências sistêmicas que não podem ser tratados como meros “problemas individuais”.
Nos últimos anos, revisitar minha própria história e meus traumas me levou ao lugar em que estou hoje: mais longe do sofrimento que carreguei durante grande parte da vida, mais consciente de que dor, rejeição e descrença não são destinos inevitáveis, mas feridas que podem ser reconhecidas, acolhidas e, com cuidado, transformadas. Essa jornada pessoal foi feita ao lado de quem me ama, do trabalho terapêutico, de comunidade e de ancestralidade.
Em terapia, fui confrontado com algo muito poderoso: aquilo que carrego é também herança de força e sobrevivência. Eu sou responsável por guardar a bengala do meu bisavô, homem que viveu até os 108 anos. Esse objeto é uma metáfora viva de resistência e vida, um símbolo de que só envelhece quem de fato vive e viver é existir em todas as nossas experiências, inclusive as mais dolorosas.

Olho para o futuro e não para o passado. Não ignoro as dores coletivas e individuais, mas escolho projetar um caminho em que a vida, a pluralidade e a dignidade de pessoas negras, LGBTQIAPN+ e periféricas sejam respeitadas, acolhidas e celebradas. A construção de ambientes de trabalho, de cuidado institucional e de cultura organizacional que priorizem a saúde mental e a equidade é urgente não apenas como cumprimento de norma, mas como compromisso com a vida humana.
Convido o mercado, as instituições, as empresas e as lideranças a não apenas lerem casos como o de Manoel com indignação, mas a transformarem essa indignação em políticas, práticas e redes de cuidado que olhem para a interseccionalidade de raça, classe, gênero e sexualidade como algo central para sustentabilidade, bem-estar e sucesso organizacional e social.
A GENTE VAI SEGUIR… e para seguir, precisamos ouvir, acolher e agir.