ELA CONSTRUIU A CASA QUE NUNCA TEVE. ELE CRESCEU DENTRO DE UMA. E EU APRENDI EM VITÓRIA O QUE É ACOLHER

Eu nunca tinha pisado no Espírito Santo. Cheguei a Vitória a convite de uma marca, para acompanhar um evento, e resolvi aproveitar a viagem para tirar do papel um projeto que estava na gaveta desde o começo do ano: a nova temporada do Guardei no Armário na Estrada, o projeto que venceu o Shark Tank Brasil versão Creators. Eu ainda não sabia que os primeiros episódios seriam gravados ali, nem que duas histórias iriam mexer tanto com o que eu achava que já sabia sobre acolhimento.

Começar um projeto onde eu não conhecia ninguém

O Guardei no Armário nasceu para contar histórias de saída do armário. Ao longo dos anos, virou o que eu costumo chamar de o maior acervo de histórias desse tipo. Na Estrada, ganhou uma segunda missão: além de ouvir as pessoas, mostrar a cidade, o estado e a comunidade onde elas vivem, para que quem visitar o lugar também conheça aqueles pontos.

Começar por Vitória, sem conhecer ninguém, foi o melhor jeito de testar essa ideia. Eu cheguei sem roteiro fechado e saí com a certeza de que uma história nunca é só a pessoa. É o bairro, a igreja, o viaduto, a cozinha, o samba. Como eu disse em um dos episódios, o mais especial de fazer esse projeto é visitar lugares que eu não conhecia, conversar com quem saiu do armário e entender como a gente chegou até aqui.

Déborah Sabará e a casa que ela construiu

Deborah Sabará

Déborah Sabará coordena a Associação GOLD, o Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade, no centro da ilha de Vitória. Ela nasceu por ali, no bairro Santa Marta, e cresceu na Serra, em uma família muito pobre. Desde os 5 anos percebia as violências por ser afeminada. Era corrigida o tempo todo: senta direito, anda como homem. A escola foi o pior lugar, inclusive por parte de profissionais da educação. Ela contou que tentava trocar de roupa para ir às aulas e não a deixavam entrar. Contou também que deixou de ir ao cinema ver o filme da Xuxa porque, na fila, a confundiam com uma menina.

Foi na Igreja Católica de base, nas comunidades ligadas à Teologia da Libertação, que ela encontrou formação política. Aos 13 anos já estava em manifestação contra o aumento da passagem. Trabalhou desde os 11, passou por um período de muita dureza e encontrou no Carnaval, nas escolas de samba, um caminho de saída. Dali chegou à GOLD.

Ela chegou à GOLD, como brinca, com uma pasta de documentos e um pendrive. Transformou a associação em uma instituição de direitos humanos, não só de pessoas LGBT, e chegou a presidir o Conselho Estadual de Direitos Humanos. Nesse caminho, disse ela, enfrentou outras violências institucionais. E tem um acordo que ela mesma faz com a equipe: ela faz a política, corre atrás do dinheiro, briga. Os colegas, muitos com mestrado e doutorado, fazem a política para cuidar dela, que perdeu a escolarização por causa da violência de gênero.

A frase que mais ficou comigo foi simples: ela tenta fazer aquilo que lhe foi negado. Foi negado a ela assistir a um jogo junto de outras pessoas, então hoje ela abre a casa para a torcida assistir ao jogo da seleção. Ela me contou de uma senhora de uns 60 anos, lésbica, que gritou de um ponto de ônibus que no dia seguinte estaria na GOLD. Para a Débora, isso é fantástico.

Em uma sala, os símbolos de memória: Marielle, e a história de um menino de 14 anos morto pela Polícia Militar no Espírito Santo, cujo caso a GOLD quer manter vivo, pedindo à Justiça e ao Ministério Público que preservem o inquérito. Em outra, exposições, incluindo a de uma artista travesti capixaba que pagou 300 reais para usar o espaço e, sem querer, ajudou a pagar o condomínio. Eu disse a ela que via ali um quilombo.

Foi nessa conversa que entreguei a ela o livro em que conto a minha história e disse que, a partir dali, ela fazia parte do acervo. Ela me trouxe uma virada: para ela, nunca foi sobre sexualidade, mas sobre gênero. Isso mexeu comigo, porque conecta com a história de muita gente.

Tem a ambição que só existe em quem já perdeu muito. Ela conta rindo que compra salas sem ter dinheiro, abriu uma fábrica de costura, tem cozinhas industriais e, quando estávamos gravando, tinha acabado de saber que a Igreja Católica emprestaria um prédio enorme para um projeto com pessoas em situação de rua, com mais de vinte pessoas contratadas por dois anos. Ela procurou um local por mais de oito meses.

E tem um jovem cego e surdo, que frequenta a casa, para quem a equipe montou um projeto de autonomia: uma casa escola onde ele aprende a arrumar a cama e a etiquetar os produtos em braile. “Nunca dizer não para as pessoas” é uma regra dela.

No fim, ela me explicou por que usa vários anéis todos os dias: cada um é um compromisso, com a população negra, com quem vive em situação de rua, com pessoas privadas de liberdade, com a socioeducação, com as mulheres e com as pessoas mais oprimidas.

George Falcão e a casa que o acolheu

Se a Débora construiu uma casa, o George cresceu dentro de uma. Bailarino clássico, professor de ballet e de samba, coreógrafo e diretor artístico no Carnaval de Vitória, ele nasceu na Fonte Grande, comunidade do centro, em uma família do Carnaval. A casa era um grande barracão de samba. A irmã já foi comissão de frente, a mãe já foi vice-presidente. Aos 7 anos, ele assistiu a um espetáculo de ballet, se apaixonou e pediu aulas. Os pais disseram sim na hora.

A mãe e a irmã atuaram na assistência social, e o pai, boêmio, teve como último trabalho o de flanelinha. Foi nessa casa que, aos 14 anos, na cozinha, a mãe ouviu um boato e perguntou. Ele confirmou, ela o aconselhou e a vida seguiu. Os namorados que teve foram para os almoços de domingo, Natal e viagens. Uma prima, artista e mulher trans, foi sua grande referência.

Ele estudou na Europa em 2013, esteve em Nova York, viu a parada do orgulho LGBT e a descreveu como um desfile que também é um manifesto. Sobre o ballet, foi honesto: é caro, e ele foi privilegiado. Hoje vê avanço em detalhes como sapatilhas e meias na cor da pele das bailarinas negras. Como professor, tenta ser mais humano, principalmente com os alunos gays que não tiveram a base que ele teve.

Ele só começou a se entender melhor nas pautas raciais há uns dois ou três anos, depois de voltar a uma escola de samba da própria comunidade. Eu contei a ele que também cresci com pai e mãe pretos em uma igreja evangélica conservadora e só mais tarde entendi que muito do que vivíamos era racismo.

Enquanto conversávamos, caminhamos pelo centro sem gastar um real. Passamos pelo Viaduto Caramuru, construído em 1925 para bondes que nunca passaram por ele, cujo nome vem dos devotos de São Benedito. O Convento de São Francisco, construído a partir de 1591, abrigou a Irmandade de São Benedito, formada inicialmente por negros escravizados. E terminamos no Convento da Penha, de onde se vê toda a cidade.

O que Vitória me ensinou

Aprendi que o movimento LGBT é vivo. Viajar pelo Brasil me mostrou que ele é fluido e se fortalece em histórias particulares e em quem trabalha pelo coletivo.

Aprendi que acolher é a primeira política. A Débora repete para a equipe que talvez não dê para conseguir uma casa para todo mundo, mas dar afeto faz a pessoa ter força para continuar.

Aprendi que a dor pode virar endereço. Tudo o que faltou a ela virou espaço para os outros.

Aprendi que uma base acolhedora é uma armadura. O George diz com todas as letras que teve privilégio, e o que faz com ele é a diferença: devolve ensinando quem não teve.

Aprendi que uma cidade é uma biografia. Para entender uma pessoa, ande pelo lugar onde ela cresceu.

E aprendi que estamos em todos os lugares. Atuando em todas as frentes e fazendo diferença na vida da comunidade.

A pergunta que trago de Vitória

Entre uma casa que acolheu e uma casa que precisou ser construída para acolher, existe uma pergunta que levo comigo desde então: que casa você está construindo, e para quem?

Assista aos dois episódios, deixe seu comentário e compartilhe com alguém que faz esse tipo de trabalho, ou que precisa saber que ele existe.

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