“Somos como uma flor que se abre”: a história de Makukawa, mulher indígena trans do Povo Javaé

Makukawa Ijahina, mulher indígena trans do Povo Javaé, e a coragem de não se esconder mais

A conversa começou leve, com origem, família e comida.

De onde ela vem

Tem histórias que a gente escuta e guarda. E tem histórias que ficam morando na gente. A de Makukawa é dessas. Foi em Palmas, no Tocantins, numa manhã de sol forte, sob árvores de galhos tortos e chão cor de terra. Ela chegou de camisa branca, o cabelo escuro caindo sobre o rosto, e sorriu antes de dizer o nome. Ijahina, do Povo Javaé. A câmera ainda nem tinha esquentado e a conversa já tinha começado.

Makukawa nasceu na Ilha do Bananal, no coração do Tocantins. Canuanã é a aldeia de onde ela vem, fundada em 1946, uma entre as dezenove onde vivem os Javaé. É um lugar que se aprende primeiro pela boca: beiju de mandioca, peixe fresco, a vida entre a caça e a pesca. Ela cresceu nesse cheiro, criada pela avó desde bebê, e dessa infância guardou um gosto que carrega até hoje: o de pescar e o de cozinhar.

Era uma criança de gestos delicados, bem afeminada, como ela mesma lembra, rindo. E é aqui que a história muda de cor.

O Olhar de alguém que sabe o tamanho que tem.

O silêncio que mora nas aldeias

Existe um tipo de dor que não faz barulho. Makukawa a descreve com a calma de quem já aprendeu a nomeá-la: dentro das comunidades, muita gente LGBTQIA+ sofre calada. As palavras que machucam, ela contou, muitas vezes vêm de quem deveria acolher. Os mais velhos, mais ligados à tradição, costumam ser os que menos aceitam. Há famílias que dizem “se for assim, eu não ajudo”, e então muita gente se esconde dentro de si mesma.

Os números do episódio confirmam o que a voz dela já dizia. Em uma pesquisa com mais de quinze mil pessoas LGBTQIA+, 79,5% dos indígenas ouvidos disseram ter sofrido discriminação por orientação sexual. Não é um dado frio. É um retrato do silêncio.

Mas há uma frase, na legenda do vídeo, que vale mais do que qualquer estatística: “As nossas avós, nossas mães, elas sabem o que nós somos, mas não falam.” É um segredo sabido, um amor que não pode ser dito em voz alta.

Ser LGBTQIA+ dentro da aldeia: muita gente sofre calada.

Sair para continuar

Há um momento na vida de quase todo jovem Javaé em que a aldeia fica pequena para o sonho. Terminam os estudos, e quem quer seguir precisa partir, rumo à cidade, à universidade, ao trabalho. Para Makukawa, essa saída foi uma luta. Foi também um aprendizado: a convivência no mundo urbano é muito diferente da vida na aldeia.

Na universidade, o que mais pesou foi o que ninguém vê. Ela achava que era a única a passar por aquilo, até encontrar os espaços de debate e outras pessoas LGBTQIA+. Foi o que a motivou a continuar. E houve o banheiro feminino, o olhar das outras mulheres, o “o que essa pessoa está fazendo aqui?”. Ela se segurou. Depois desabafou, porque, como disse, quem não desabafa adoece.

O Brasil já tem números para isso: a presença indígena nas universidades saltou de cerca de nove mil estudantes, em 2011, para quarenta e seis mil, em 2022. Mas a falta de acolhimento ainda faz muita gente desistir pelo caminho. Por isso importam as redes que se formam: só em 2026, a Rede Arandu mapeou dezenove coletivos indígenas LGBTQIA+ no país.

Resistir, para ela, tem um jeito simples e firme: viver sem baixar a cabeça.

Falar abertamente é parte do caminho.

A língua que guarda o mundo

Na escola da aldeia, Makukawa foi alfabetizada em português. Mas em casa, entre os seus, a língua é outra, a nativa, misturada ao português como um rio que recebe afluentes. Na infância, ela tinha vergonha de falar o idioma dos brancos. Hoje, escolhe com orgulho a língua dos seus.

Foi por isso que, num ponto do episódio, pedimos que ela respondesse como quisesse. E ela respondeu na língua Javaé. A tradução veio na legenda, direta como um recado: “A igreja não é nossa religião, a gente aprende através dos brancos. A nossa religião é a espiritualidade que é ensinada pelos Pajés.”

A língua que ela quase não falava

Makukawa contou que foi alfabetizada em português na escola, mas que, na comunidade, a língua do dia a dia é a nativa, misturada ao português. Na infância, ela tinha vergonha de falar português. Um cartão do episódio lembra que, nas escolas Javaé, o ensino bilíngue ajuda a preservar a língua materna e a identidade cultural, mas a falta de materiais didáticos específicos ainda é um desafio (Revista Cocar/UFT).

Foi por isso que, num ponto do episódio, propusemos que ela respondesse na sua própria língua. A resposta veio legendada, e ela foi direta: “A igreja não é nossa religião, a gente aprende através dos brancos. A nossa religião é a espiritualidade que é ensinada pelos Pajés.”

Responder na própria língua também é afirmar identidade.

A língua que guarda o mundo

Na escola da aldeia, Makukawa foi alfabetizada em português. Mas em casa, entre os seus, a língua é outra, a nativa, misturada ao português como um rio que recebe afluentes. Na infância, ela tinha vergonha de falar o idioma dos brancos. Hoje, escolhe com orgulho a língua dos seus.

Foi por isso que, num ponto do episódio, pedimos que ela respondesse como quisesse. E ela respondeu na língua Javaé. A tradução veio na legenda, direta como um recado: “A igreja não é nossa religião, a gente aprende através dos brancos. A nossa religião é a espiritualidade que é ensinada pelos Pajés.”

Uma flor que se abre

No fim, a imagem que dá nome a esta história. Quando dizem que homem nasce homem e mulher nasce mulher, Makukawa responde com uma frase curta e inteira: “Não é nossa escolha.” E completa, com a delicadeza de quem entende a natureza: a gente nasce de um jeito por fora, mas por dentro somos diferentes, “como se a gente fosse uma flor, que se abre igual uma flor.”

Uma flor não escolhe quando abre. Abre porque é da sua natureza, e porque chegou a hora de ser vista.

Quando a câmera desliga, resta o que importa. Um agradecimento, uma risada, um abraço apertado em pleno cerrado. Makukawa nos contou o quanto foi bom abrir-se e ser ouvida. E o recado que deixamos vale para quem lê agora: que cada história seja uma ponte para outra, que a gente possa ser quem é sem medo, sem vergonha e sem se podar.

O Guardei no Armário na Estrada percorre o Brasil escutando histórias LGBTQIA+. Assista ao episódio completo no YouTube, comente e compartilhe com quem precisa conhecer a história da Makukawa.

Ficha técnica
Direção: Emanuel Araquan e Samuel Gomes
Captação deste vídeo: Samuel Gomes
Motion: Victor Nils
Edição: Samuel Gomes e James Ratiere
Participação neste vídeo: Makukawa Ijahina

Projeto ganhador do Shark Tank Brasil Versão Creators 2025
Agradecimento: Farmax

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