No início de agosto, vivi algo que, à primeira vista, pode parecer simples, mas foi um dos atos mais profundos de amor-próprio que já me permiti: fiz uma sessão de fotos, para mim. Não para uma marca. Não para um trabalho. Para celebrar a minha história, o homem que me tornei, o corpo que habito e a pele que carrego.

Essa experiência virou o episódio XÁ COMIGO #32 – “Nova era, nova fase, novas fotos”, com o fotógrafo José de Holanda, que já eternizou nomes como Elza Soares, Luedji Luna e Emicida. Nele, compartilho o que há por trás dessas imagens: a jornada de quem aprendeu, depois de muito tempo, a se olhar com afeto e a se reconhecer como bonito não por vaidade, mas por sobrevivência.
De acordo com o Relatório Global da Autoestima da Dove (2023), mais de 70% das pessoas negras dizem que raramente se sentem representadas em imagens que veem na mídia. E quando a representatividade não nos alcança, o espelho muitas vezes se torna um lugar hostil. Por isso, essas fotos são mais do que retratos: são cura. São a materialização de um reencontro entre mim e o que sempre existiu em mim, mas que o olhar do outro tentou apagar.

Carregar a cor da noite na pele é também carregar uma história de silenciamentos. Por isso, quando me vi diante da câmera, compreendi que cada clique era um ato político, espiritual e estético. Foi o meu rito de passagem.
Para que esse momento acontecesse, contei com mãos e olhares que me sustentaram. A psicóloga Ester Antonieta, com sua escuta afrocêntrica e espiritual, me ajudou a preparar o terreno emocional. No dia das fotos, Cadu Araújo cuidou da beleza e do styling com a delicadeza de quem entende que estética é também poder.
Cíntia Félix, com sua marca AZ Marias, trouxe a força das mulheres negras que criam mundos. Bruno Gomes, da Áblior, vestiu meu corpo com alfaiataria que traduz presença e identidade. E o olhar sensível, racializado e verdadeiro de José de Holanda transformou tudo isso em poesia visual.

Antes do ensaio, fui cuidado por DYOU, meu novo dread maker, que compreendeu o que meu Ori precisava naquele dia. Meus dreads, trançados em duas espirais, carregavam mais do que estils eram fios de memória e ancestralidade. E, como se fosse um prenúncio, na sexta-feira anterior, no salão Seu Jorge, todos estavam vestidos de branco. Eu entendi: cada gesto era um gesto de axé. Essas fotos marcam o início de uma nova fase da minha vida e do meu projeto. Elas anunciam o que está por vir.
E por falar em novos começos, é com imensa alegria que compartilho que vem aí o Guardei No Armário – O Talk Show Ao Vivo, no SESC Consolação, celebrando 10 anos do maior acervo de histórias LGBTQIAPN+ do mundo.
Nos dias 9, 16, 23 e 30 de outubro, vou subir ao palco para entrevistas que atravessam arte, identidade e liberdade. Entre os convidados, nomes que transformam o nosso tempo:

Cronograma:
09/10 – Érica Malunguinho, professora, articuladora cultural, ex-deputada e mulher trans. Uma conversa sobre política do cuidado, ancestralidade e os gestos que construíram espaços de pertencimento.

16/10 – João Silvério Trevisan, escritor, ensaísta e dramaturgo. Memória literária, os silêncios da história e as travessias que moldaram a cena LGBTQIA+ brasileira.

23/10 – Giovana Heliodoro, historiadora, comunicadora e mulher trans preta. História, humor e a potência política das narrativas trans negras.

30/10 – Rodrigo França, escritor, dramaturgo e filósofo, homem bissexual. Corpo, cena e pensamento em diálogo com as formas de amar e existir.

Duração 2h divididas em quatro blocos.