Possivelmente todo trabalhador periférico já tenha trabalhado ou trabalha em escala 6×1 e sabe o quão desgastante é esse regime. Me lembrei de quando eu era telemarketing e por quase 4 anos nessa profissão esse modelo era o único que encontrava. Na época eu tinha acabado de entrar na universidade, cursando Design Gráfico, sem saber se era a profissão correta para me dar segurança financeira. Na real, até então, era incerto saber se eu entraria ou não na área que escolhi estudar. Era uma rotina muito intensa, tentando conciliar meu trabalho com os estudos, e minha sexualidade, ainda no armário em meio a uma criação extremamente religiosa evangélica.

Uma das memórias mais latentes dessa época foi uma conversa que tive com o meu superior, depois de ter o que reconheço hoje como um esgotamento emocional, chorava antes de ir para o trabalho, tinha crises diária de ansiedade e choro no banheiro. Na época eu era obrigado a bater metas insustentáveis de vendas de jornais impressos do Estado de S. Paulo, também conhecido como Estadão. Era incentivado e obrigado a vender jornais para parentes, amigos e conhecidos, para que a meta fosse cumprida e quando ela não era, nós todos da operação só poderíamos ir embora quando conseguíssemos fazer isso. Já cheguei a trabalhar por vários dias seguidos por mais de 14 horas. Não que isso não tenha acontecido depois dessa experiência, afinal, trabalho com publicidade e é um mercado tão adoecedor quanto o telemarketing.
Depois dessas situações de estresse no trabalho, o medo do futuro, as constantes pregações na igreja que me faziam acreditar que eu era errado e pecador por gostar de homens, a pressão por excelência sofrida dentro da universidade por ser PROUNI, ter que pagar a metade da mensalidade, já que havia conquistado esse modelo beneficio.
Uma vez aos prantos chego na minha diretoria e peço demissão sem saber se eu conseguiria continuar realizando meu sonho de ser um designer. Conto com mais detalhe no meu livro Guardei No Armário, mas na ocasião, me foi dito que meu futuro longe dali não seria próspero, teria muitas dificuldades, que pessoas como eu não avançavam e que eu não chegaria aos 30 anos com quase nada se eu perdesse aquela oportunidade que a empresa estava me dando. Afinal, apesar de tudo eu era um bom vendedor.

Como ainda não tinha experiência suficiente para conseguir um emprego na área, já tinha acabado de entrar na faculdade, continuei procurando trabalhos mas os que mais apareciam eram esses e fui de call center em call center, trabalhando incessantemente nessa escala 6×1, me provando e adoecendo. Acho que minha habilidade de argumentar, de síntese, de retórica e criatividade foram moldadas ali.
Ver a deputada trans Erika Hilton, que diz que já foi da CCB, assim como eu conseguir aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6x1l, em dois turnos pelo Plenário da Câmara dos Deputados e seguiu para análise no Senado Federal, que junto com ela o vereador gay Rick Azevedo, que é idealizador do movimento Vida Além do Trabalho, me deu um sopro de esperança no futuro que estamos construindo.
A importância dessa conquista só será medida no futuro. Ainda que tentem nos colocar como agenda woke nos colocando como “apenas” um conjunto de pautas progressistas voltadas à justiça social, diversidade e inclusão, como se falar da sociedade como um todo não fosse falar sobre diversidade. Essa conquista da sociedade a partir de uma luta de dois perfis de dissidentes, mostra que não vamos parar de lutar, porque apesar da dor que nos fazem sentir, a gente seguirá lutando para que todo mundo possa enfim conquistar a liberdade de existir, amar, desejar, sonhar, criar, construir e viver como somos de verdade, sem medo e sem amarras.
É um ano muito importante para renovação política e temos a chance de ter uma Câmara dos Deputados menos reacionária, conservador, que defenda de fato o interesse das pessoas e que faça desse país um lugar de fato maravilhoso para os mais vulneráveis.

O tema da 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo é “A rua convoca, a urna confirma!”. O marco deste ano tem como foco a importância do voto e da ocupação de espaços de decisão política e institucional em ano de eleições. A gente já viu que podemos ir muito muito longe se entendermos que a nossa luta é como trabalhadores.
Esse ano a parada teve a queda na arrecadação para colocá-la em pé em 60%, apesar disso, não é uma escolha essa grande manifestação não acontecer. Ela acontecerá de forma ainda mais bonita, mostrando para todas as marcas e empresas que abandonaram o barco por conta de uma política internacional trampista, que somos fortes e iremos passar. Governos de direita vem, mas passam. Nós LGBTs permanecemos!